sábado, 13 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Na alça da fantasia...
Il. de Márcia Cardeal
Miro
– Valdomiro Silveira – é dono de uma
fábrica de miniaturas, feitas com latinhas recicláveis. A fábrica toda cabe em
duas caixas, que o menino guarda embaixo da cama. Inventar as miniaturas, a partir das latinhas, é uma grande
felicidade para Miro. Ele é capaz de
passar horas trabalhando nas peças para deixá-las irretocáveis.
Num
segundo movimento de criação, ele
promove o encantamento das
miniaturas. Com o sopro da imaginação, anima os objetos criados e lhes imprime
vida própria. De posse dessa vida poética, as
miniaturas conversam e tramam histórias sobre si mesmas e sobre seu
criador.
Há
um bule que já morou no fundo do mar, um jarro que vivia bordado em uma
cortina, uma concha que foi um
pensamento do Miro que caiu no mar e virou concha, uma mala que
pertenceu a um colecionador de sombras, a um pesquisador de suspiros de jardim,
a um capturador e assoprador de
palavras, dentre outros donos ( a mala só não carregou roupas).
Na
hora em que Miro enfrenta a perda do pai, em um naufrágio no alto-mar, as
miniaturas participam como coadjuvantes simbólicas na elaboração do sofrimento
e da saudade do menino.
As
conversas entre as miniaturas sempre são interrompidas pelo grito da realidade
que vem por meio da mãe, chamando-o para
as lidas do cotidiano : “Mirooooo, desça, o café tá na mesa!” “Miroooo, venha
ajudar seu pai”... Miroooo, fiz queijadinha...” Mirooooo, teus amigos estão
aqui!”...
As
miniaturas são apenas uma parte das vivências mágicas do livro. Miro mora na
Rua Ametista, porém, a rua preferida dele
é a Âmbar.
A Âmbar tem as frutas mais doces do bairro, a
casa assombrada onde moram a tainha, a cobra que passa a vida se transfomando
em “outros” para fazer a experiência da outridade, a formiga que queria cantar
como uma cigarra, a rã que queria namorar um cachorro, e a bruxa da costa esmeralda – uma bruxa
diferente e no exercício pleno de sua
bruxidade. Também ficam na Âmbar a casa 109, dos amigos Quin, Isa e Matita,
e a casa creme da moça que ajudou Miro a
se alfabetizar.
Rua
Âmbar é uma história de pertencimento e memória. Miro poderá se mudar de Mariscal, um dia, mas
levará a Âmbar para onde for. Será sempre o chão sagrado que ele vai pisar para
sempre, “pois levamos as
ruas, as casas, as paisagens de nossa infância para onde quer que formos”.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Rua Âmbar no Projeto Milagre das Letras
"Gostei muito desse livro, não queria nem que
ele acabasse de tão bom que ele é. A Rua Âmbar era cheia de mistérios e
surpresas muito legais. E também gostei da fábrica de Miro, da casa do poço, da casa 109, gostei de tudo muito
bom."
Dayane Marques - São Gonçalo RJ
sábado, 11 de janeiro de 2014
Rua Âmbar no Diário Catarinense (Florianópolis/SC)
Rua Âmbar no Diário Catarinense de 11/01/2014
Breve ensaio do Professor Fabiano Tadeu Grazioli
Afeto, aventura e amizade na Literatura Infantojuvenil catarinense
Fabiano Tadeu Grazioli[1]
Rua Âmbar
(Formato, 2013) é a publicação infantojuvenil mais recente da escritora
catarinense Eloí Bocheco. Na trilha dos últimos Casa de Consertos (Melhoramentos, 2012), Tua mão na minha (Habilis, 2012) e Cantorias de Jardim (Paulinas,
2012), o livro é bem cuidado, com ilustrações primorosas de Márcia Cardeal e um
projeto gráfico adequado.
A história é dividida em treze
capítulos, numerados e não titulados e se desenvolve em Mariscal, praia
catarinense. Eloí recolhe elementos do dia-a-dia do lugar (ruas da referida
praia, detalhes da vida dos pescadores,
dos moradores, dos veranistas) e os utiliza como peças importantes no esquema
narrativo que monta.
Miro, ou melhor, Valdomiro Silveira, o protagonista da história é um menino que vive a infância com intensidade. Quando se apresenta aos amigos veranistas diz que “o pai é Leopoldo e trabalha na pesca, a mãe é Inês e vende peixes, que mora na rua Ametista, estuda no terceiro ano, adora a rua Âmbar e faz miniaturas de latinhas” (p. 34).
Mas o que significa viver a
infância com intensidade, no caso de um menino filho de família simples, e
quase sem amigos? Significa ter tempo e espaço para brincar. Os pais de Miro têm
noção da importância que o brincar criativo tem na vida do menino. Isso fica
evidente em vários episódios da história, mas, em especial, no capítulo quatro,
quando Miro abandona o trabalho de limpar peixes e sai, a mando do pai para
brincar: “Em geral o pai lhe dá uma tainha e uma anchova para limpar, às vezes,
dois ou três peixes pequenos. Em seguida diz que já pode ir brincar” (p.9); e
quando a mãe compara o brincar ao trabalho das abelhas: “- Olhe ali as abelhas
no canteiro de cravinas, colhendo néctar. Criança brincando é abelha colhendo
néctar. Brincadeira é néctar armazenado na alma”(p.9). Os pais de Miro, ao
compreenderem a importância do brincar na vida do filho oferecem ao menino o
ambiente facilitador para a brincadeira. Proporcionar tal ambiente é, para
Marina Marcondes Machado (2004), função dos adultos em relação às crianças.
O espaço que o menino possui para
brincar é a própria Mariscal, com suas ruas, casas, árvores, areia e mar. O
personagem transita livremente pelos vários lugares da praia. Leopoldo e Inês
compreendem que “uma criança livre, feliz, brinca quando come, sonha, quando
faz seus pequenos discursos poéticos” (MACHADO, 2004, p. 19).
Quem acompanha a narrativa de
Eloí percebe que brincar é produzir, fabricar, criar, e que essas experiências
tornam lúdico o olhar de Miro para o mundo. É a partir deste olhar que o menino
filtra a vida que lhe cerca.
Já no início da história, o
leitor é informado que Miro possui uma habilidade interessante: fabrica
miniaturas de objetos com latinhas de refrigerante. A “fábrica”, como são
chamadas as duas caixas de madeira onde guarda seus materiais fica “localizada
em um endereço de acesso restrito. E mais, Miro dorme em cima da fábrica. Ou
melhor dizendo, ele dorme e acorda em cima dela, por que ela fica debaixo da
cama dele” (p. 5). A imaginação de Miro somada à força do maravilhoso na
história, resulta em cenas nas quais, curiosamente, os objetos guardados
embaixo da cama conversam.
Catar e saborear pitangas pretas
é uma das atividades preferidas do menino. Mas sabe que deve se apropriar
somente das que ficam do lado de fora dos muros das casas. Ensinamento do pai
Leopoldo, por quem Miro tem carinho e afeto especial. Miro admira o pai pescador, ao mesmo tempo que
lamenta a vida sofrida que ele leva:
“-Por que não larga a vida no mar e vai fazer
outra coisa, pai?
- Sou um homem do mar. Devo ter sido peixe em
outra vida.
(...)
- Você nunca passeia, nunca se diverte, pai.
- Minha diversão é por meu barco no mar.
- Mas por causa do sol e da água salgada seu
rosto está todo franzido.
- Filhos do mar, feito eu, ficam assim mesmo,
Miro (p. 12).
O protagonista não deseja ser
pescador como o pai. Mas possui “alma de peixe”, como ele, e por isso projeta para
si uma profissão parecida:
“-
Quero trabalhar no mar, mas não como pescador. Quero ser um pesquisador, um
estudioso de tudo o que existe no fundo do mar.
- Gostei dessa ideia.
- Aí eu também serei um homem do mar feito
você” (p. 12).
É na Rua Âmbar que grande parte
da história acontece. Os melhores pés de frutas estão na Âmbar. A casa do poço,
a mais misteriosa da região, também. Trata-se de uma casa abandonada, que Miro
tentou conhecer três vezes e só na quarta vez teve coragem suficiente para
entrar. Em um quarto encontrou uma formiga ruiva falante, que por sinal, já
conhecia sua fábrica. No outro quarto encontrou um armário de onde saiu uma
cobra azul-turquesa. Conversando com a cobra ficou sabendo que ela tinha
nascido gaivota e se transformado em galho de árvore, pedra, chapéu, carta de
baralho... No terceiro quarto encontrou uma tainha com lindas escamas
reluzentes. Em seu cesto a tainha guardava miniaturas de lata que haviam sumido
do quarto de Miro. “Disseram que foram dar uma volta na Rua Âmbar e não acharam
mais o caminho de volta” (p. 23), explicou a tainha. Saindo da casa, Miro
encontra uma bruxa da Costa Esmeralda que veio buscar água do poço para seus
trabalhos de magia.
A narrativa de Eloí lembra o
mestre Lobato, já que a autora anula as fronteiras entre a vida real, conhecida
de perto pelo leitor, e o espaço do maravilhoso, que é próprio da Literatura
para crianças. Sobre essa ocorrência em
Lobato, Nelly Novas Coelho afirma: “Suas histórias não decorrem em nenhum reino
maravilhoso, fora do tempo e espaço históricos (...). Pelo contrário, todas as
situações que estruturam as efabulações de cada livro radicam-se no mundo
cotidiano, familiar ao dia-a-dia da meninada” (2006, p. 642). Neste ambiente
conhecido e comum, “surge, de repente, um elemento estranho, pertencente ao
reino do imaginário, do sonho ou da fantasia. Mas devido à naturalidade com que
esse elemento estranho passa a integrar o natural, ambos se igualam ou se
identificam como possibilidade de existência (2006, p. 642).
Em Rua Âmbar, Eloí se utiliza do mesmo recurso. As miniaturas de latinha e demais objetos que
conversam entre si; a formiga-ruiva e a tainha de lindas escamas, ambas
falantes; a cobra azul turquesa que se transforma no que quiser; a bruxa da
Costa Esmeralda, entre outros elementos, são próprios da fantasia, surgem
naturalmente na história e se somam aos eventos cotidianos vivenciados por
Miro, promovendo a fusão entre mundo real e imaginário.
É na Rua Ambar que Miro conhece
os únicos amigos com quem ele vai se relacionar na história: Matita, Quim e
Isa. São veranistas, moram em Jundiaí/SP e o pai deles comprou a casa 109. Os
quatro vivem aventuras ciceroneados por Miro, que lhes apresenta a rua e a casa do poço.
A notícia da morte de seu
Leopoldo pegou todos de surpresa. “O barco bateu nas pedras e afundou. Ninguém
escapou” (p. 46). Miro sofre muito com a partida do pai. E agora, como iria
ser? E quando os peixes da peixaria acabassem, o que a mãe faria? ‘’Se ela
dizia que ia dar um jeito, então é porque ia mesmo. Ela era uma mulher de
confiança” (p. 48).
No último dia do veraneio de seus
amigos, Miro é convidado por eles para plantar um pé de ingá no pátio da casa
109. A árvore era uma homenagem a Seu Leopoldo. Miro imagina que o pai ia
gostar da homenagem. Ele se deu conta de que, curtido de sol e da água salgada
do mar, o pai fora se tornando parecido com um tronco de árvore. No dia
seguinte, após o café, o protagonista vai até a casa dos amigos para se
despedir. Presenteou-os com um barquinho, um jarro de lata e uma estrela do mar.
Voltariam no próximo janeiro, e isso deixava Miro feliz.
Na obra em questão, conhecemos
uma Eloí diferente daquela que diversas vezes já encontramos, cuja matéria
prima para a criação literária são as memórias da infância. Em Rua Âmbar, Eloí se mostra capaz de
mergulhar na infância dos meninos da atualidade e de utilizar elementos que não
lhe cercaram na sua época de criança, como a praia, o mundo dos pescadores e a
vida dos veranistas. Mas não deixa de emprestar a Miro o olho da menina curiosa
e atenta que imagino que ela foi e que ainda é. Aos olhos de Miro, nada passa
despercebido na Rua Âmbar, qualquer novidade é notada, por mais miúda que seja.
O texto da obra é fluente e com
linguagem acessível a partir do Leitor em Processo. Leitura envolvente. Desejo
que muitos leitores encontrem com Miro e passeiem pela Rua Âmbar. Nas escolas,
nas bibliotecas, nas rodas de leitura, nas sessões de leitura literária nas
escolas, enfim, onde estiverem leitores curiosos e sensíveis, ali Rua Âmbar pode figurar com majestade.
Referências
MACHADO,
Marina Marcondes. A poética do brincar.
São Paulo: Loyola, 2004.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil/juvenil brasileira. São Paulo: Editora Nacional, 2006.
[1] Mestre
em Estudos Literários. Professor de Literatura Infantojuvenil da Faculdade
Anglicana de Erechim/RS.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Rua de infância
RUA ÂMBAR no Jornal NOTÍCIAS DO DIA - matéria assinada pela jornalista Edinara Kley de Florianópolis/SC.
Para formular a matéria, a jornalista me enviou uma pequena entrevista, que transcrevo abaixo. Ela contou que leu o livro com seu filho de 9 anos e os dois curtiram muito o passeio pela Âmbar. Adorei saber que meu livro caiu nas mãos de uma jornalista, grande leitora, e mãe-leitora.
Edinara - De onde e quando surgiu a inspiração para a história do Miro e suas criações?
Eloí - Certa vez, vi uma matéria na tv sobre um menino que fazia miniaturas de latinhas recicláveis. O menino era encantador e suas criações eram perfeitas. Nunca mais esqueci a cena do garoto fabricando minúsculos objetos, todos irretocáveis. De um certo modo, Miro – Valdomiro Silveira – personagem de Rua Âmbar, surgiu dessa lembrança que ficou gravada na memória. Inventar o personagem foi o primeiro passo. Depois, Miro toma posse da história e puxa o carro da fantasia, dando voz lírica às miniaturas que inventa, ou explorando os recantos mágicos de sua rua de infância.
Edinara - Rua Âmbar tem uma mistura de vários elementos que encantam crianças (e adultos): miniaturas, mar, casas mal assombradas, bichos falantes, perda... Foi proposital essa junção?
Eloí - Não foi planejado, mas acabou acontecendo de se juntarem no mesmo movimento coisas que me encantam, como miniaturas de objetos, casas mal assombradas, bichos que falam nas histórias, ruas da infância, o mar da costa esmeralda de SC. A dor da perda é um sentimento que me toca muito. É um tema tão humano e inevitável. Em Rua Âmbar e em outros livros que escrevi ( Tua Mão na Minha, Beatriz em Trânsito, Casa de Consertos) acontecem perdas e os personagens têm que lidar com elas como podem. No caso de Miro, a fantasia o auxilia na acomodação da dor para a vida brotar de novo e prosseguir, apesar do sofrimento causado pela perda do pai.
Edinara - Apesar de se tratar de uma ficção, você usou uma localidade real de Santa Catarina. Há algum motivo em especial, além do fato de estar na cidade onde mora?
Eloí - Escolhi como cenário a praia de Mariscal porque é um lugar mágico, que me encanta há mais de trinta anos. Achei que seria um lugar muito apropriado para o menino Miro morar e cultivar sua arte, seus amigos, suas fantasias e brincadeiras.
Edinara - A Rua Âmbar existe mesmo em Mariscal? Se existe, é da forma descrita no livro?
A Rua Âmbar existe, sim, mas não da forma descrita no livro. É uma rua do mundo real, mas, reeencantada, digamos assim. Passada pelo sonho, pela imaginação e apresentada em “outro estado” - não mais no “estado” de todos os dias.
Donde se conclui que, doravante, a Rua Âmbar, em Mariscal, tem duas vidas: uma real e outra de sonho. “O que é de verdade, para ter graça, tem de ser sonhado” – dissera a Miro a moça da casa creme, P.6
Edinara - Como surgiu a parceria com a ilustradora Márcia Cardeal? Já haviam trabalhado juntas antes?
Eloí - Há muito tempo eu acalentava o sonho de fazer um trabalho com Márcia Cardeal e a oportunidade chegou quando a editora Saraiva/Formato me pediu a indicação de um ilustrador de Santa Catarina para ilustrar Rua Âmbar. Indiquei vivamente o nome de Marcia Cardeal e, para minha alegria, a indicação foi aceita.
Márcia veio em minha casa ( uma honra enorme) para conversarmos sobre as ilustrações e fomos a Mariscal fotografar o cenário da obra. Uma visita emocionante, mágica e inesquecível, que marcou para sempre a história deste livro.
A parceria com Márcia Cardeal foi maravilhosa e o resultado pode ser conferido “passeando” pela Rua Âmbar ( a de sonho).
São bruxas em contextos diferentes. Ambas no pleno exercício de suas bruxidades. A bruxinha Elisa é uma bruxa-menina, bruxa-criança, moradora da mata funda. A bruxa da costa esmeralda é uma bruxa do mar – diferente, em alguns pontos, das bruxas ditas “normais” ou tradicionais. É uma bruxa “misturada” – com o bem e o mal tramando nas entranhas. Sua passagem pela Âmbar é rápida, contudo, ajudou a compor o movimento na casa assombrada e deixou Miro bastante impressionado, por já tê-la visto num livro antigo sobre bruxas da costa esmeralda.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Suspiros de Flores.... ( Rua Âmbar, P. 28 e 29)
“_ Fui mala de um
pesquisador de suspiros. Ele recolhia os
suspiros, estudava-os e depois fazia anotações num caderno de capa amarela, que
tinha uma borboleta pintada na primeira página.
Ele passava o dia
recolhendo e anotando. Depois levava os suspiros para longe, para alguém que
também estudava suspiros.
_ E o que ele anotava no caderno amarelo?
_ Coisas tipo assim:
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